Alegria pode ser um elemento essencial na adaptação da casa para o envelhecimento.

Arquiteta afirma que pequenas adaptações no design da casa podem trazer grandes benefícios para idosos que vivem com autonomia.

Alegria, autonomia e pequenas mudanças: a proposta de uma arquiteta para adaptar a casa ao envelhecimento

A arquiteta Susanne Stadler defende que preparar a casa para o envelhecimento não deve significar apenas instalar barras de apoio, rampas ou soluções voltadas à segurança. Para ela, o ponto de partida precisa ser outro: entender o que dá prazer, conforto e senso de identidade a quem vive naquele espaço. A ideia é que o ambiente continue favorecendo autonomia, vínculo afetivo e bem-estar à medida que a idade avança.

Essa visão nasceu de uma experiência pessoal. Há cerca de 30 anos, quando estudava arquitetura na Universidade da Califórnia, em Berkeley, Stadler alugou um quarto na casa de Jean, uma mulher na casa dos 80 anos. Segundo relato ao Centro de Longevidade de Stanford, ela ficou profundamente impactada quando a senhoria foi retirada de casa e levada para uma instituição; Jean morreu menos de um ano depois. A experiência inspirou a dissertação de mestrado de Stadler, At Home With Growing Older, e passou a orientar sua atuação em design inclusivo e adaptado à idade.

Ao longo da carreira, Stadler trabalhou em projetos ligados ao envelhecimento e ao cuidado, incluindo interiores para o Zen Hospice Project, em San Francisco, a comunidade sênior Avenidas, em Palo Alto, e o Wallis Annenberg GenSpace, em Los Angeles, espaço pensado para promover conexão social e envelhecimento saudável. Hoje, ela é cofundadora e diretora executiva da organização sem fins lucrativos At Home With Growing Older, criada a partir da mesma ideia central de sua tese: ajudar pessoas idosas a adaptarem seus espaços sem perder a relação afetiva com a própria casa.

O tema ganhou relevância porque envelhecer em casa é desejo da maioria. Em pesquisa da Universidade de Michigan, 88% dos adultos entre 50 e 80 anos disseram considerar importante permanecer em seus lares pelo maior tempo possível. Ao mesmo tempo, o levantamento mostrou que muitos ainda não se prepararam para isso: quase metade afirmou ter refletido pouco ou nada sobre as mudanças necessárias para continuar vivendo em casa com segurança e conforto.

É justamente nesse ponto que a arquiteta propõe uma abordagem diferente. Em vez de priorizar reformas caras e extensas, ela aposta em intervenções simples, de baixo custo e com impacto direto na rotina. Entre os exemplos citados por Stadler estão trocar cortinas pesadas por soluções que deixem entrar mais luz natural, melhorar a iluminação de escadas com luzes de LED, marcar a borda dos degraus e reorganizar a mesa de jantar para tornar a casa mais acolhedora e facilitar convites, encontros e convivência. Para ela, adaptar o lar também é reduzir o isolamento social.

A proposta não substitui iniciativas voltadas à acessibilidade e à prevenção de acidentes, mas amplia essa lógica. No site da organização, a defesa é de que uma casa favorável ao envelhecimento precisa reunir conexão, suporte funcional e qualidade de design. O grupo afirma ainda que continua desenvolvendo ferramentas, intervenções e uma rede de aprendizagem para profissionais, cuidadores e moradores interessados em repensar a experiência de envelhecer em casa.

Desde 2009, At Home With Growing Older promove fóruns, oficinas e parcerias com centros para idosos, organizações de moradia acessível e outros grupos comunitários. A entidade também mantém o podcast At Home, On Air e oferece os workshops Aging 360, voltados a soluções práticas para o dia a dia. Segundo Stanford, em 2024 a organização recebeu seu primeiro grande financiamento, o que permitiu ampliar essas oficinas para adultos de baixa renda e assistentes sociais em Maryland e Michigan.

No centro da proposta de Stadler está uma ideia simples: envelhecer bem em casa não depende apenas de evitar riscos, mas também de preservar reconhecimento, prazer e pertencimento. Em vez de enxergar a velhice apenas como uma fase de perdas, sua abordagem procura adaptar o espaço para que a pessoa continue vivendo com mais agência, dignidade e alegria.