Os dados também apontam crescimento nos casos que demandaram internação hospitalar. Apesar dos desafios relacionados ao diagnóstico, a rede pública disponibiliza atendimento multidisciplinar aos pacientes.
Os atendimentos ambulatoriais relacionados à Fibromialgia cresceram 35% em 2025 no estado de São Paulo, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo. No ano passado, foram registrados 38.662 atendimentos ambulatoriais, contra 28.640 realizados em 2024.
Os dados também apontam aumento nos casos que exigiram internação hospitalar por fibromialgia. Nos últimos três anos, o número de registros quintuplicou: foram 39 internações em 2023, 118 em 2024 e 198 em 2025. A hospitalização pode ser necessária, por exemplo, quando as crises de dor se tornam mais intensas ou quando surgem complicações associadas, como a Síndrome do intestino irritável.
Na capital paulista, a tendência de alta também se mantém. Somente em 2025, as Unidades Básicas de Saúde registraram 24.421 atendimentos, envolvendo 14.882 pacientes com suspeita ou diagnóstico de fibromialgia, classificada pelo código CID M79.7.
Fibromialgia passa a ser reconhecida como deficiência
O diagnóstico da Fibromialgia é considerado um passo importante para melhorar o tratamento e a qualidade de vida das pessoas que convivem com a condição.
O crescimento dos registros na rede pública de saúde ocorre em meio a mudanças recentes na legislação. Desde janeiro deste ano, a fibromialgia passou a ser reconhecida como deficiênciano país. A medida está prevista na Lei nº 15.176, sancionada em julho de 2025, que amplia direitos e estabelece proteção para pessoas com fibromialgia, Síndrome da fadiga crônica, Síndrome de dor regional complexa e outras condições relacionadas.
A fibromialgia é uma condição reumatológica caracterizada principalmente por dor generalizada no corpo, além de sintomas como fadiga persistente, distúrbios do sono, alterações cognitivas e ansiedade. As causas ainda não são totalmente compreendidas, e o diagnóstico costuma ser clínico, realizado por especialistas após a exclusão de outras doenças.
No Sistema Único de Saúde, o primeiro atendimento geralmente ocorre na atenção básica, por meio das Unidades Básicas de Saúde administradas pelos municípios. Essas unidades são responsáveis pelo acompanhamento inicial e pelo encaminhamento dos pacientes, quando necessário, para serviços especializados da rede estadual.
A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo oferece atendimento inicial para casos de Fibromialgia nas 480 Unidades Básicas de Saúde da cidade. Nessas unidades, equipes multiprofissionais realizam a avaliação dos pacientes e definem a linha de cuidado mais adequada para cada situação.
A capital paulista também disponibiliza as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, que podem ser utilizadas como parte do tratamento quando indicadas pelos profissionais de saúde.
Outro componente da rede de atendimento são os Centros de Referência da Dor, considerados pioneiros no país. O serviço é voltado para pessoas a partir de 13 anos que convivem com dor crônica há mais de três meses e funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. O acesso ao atendimento é feito exclusivamente por encaminhamento das UBSs.
Desde 2021, o serviço vem registrando crescimento contínuo no número de atendimentos, incluindo as demandas relacionadas ao diagnóstico de Fibromialgia. Somadas, as seis unidades regionais — Leste, Sudeste, Norte, Sul, Oeste e Centro — já contabilizam 667.804 atendimentos no período.
A evolução anual foi a seguinte:
- 36.587 atendimentos em 2021
- 40.552 em 2022
- 109.267 em 2023
- 250.094 em 2024
- 241.304 em 2025
“É uma síndrome traiçoeira”
A autônoma Ailana Torres Yassutake, moradora de Barueri, relembra que, quando recebeu o diagnóstico de fibromialgia, há cerca de dez anos, a doença ainda era pouco conhecida. Na busca por respostas para os sintomas, ela precisou viajar para outros estados para investigar o caso.
“Passei por uma investigação extensa, consultando vários especialistas, até ser encaminhada para um neuropsiquiatra em Goiânia. Foi lá que recebi o diagnóstico e comecei a entender o que estava acontecendo comigo”, relata.
Ailana conta que convive diariamente com sintomas como dor generalizada, rigidez muscular, fadiga intensa, insônia e dificuldade de concentração, condição frequentemente descrita por pacientes como “névoa mental”. Com o passar dos anos, também desenvolveu Depressão, Ansiedade e Síndrome do intestino irritável. Atualmente, ela também passa por investigação de possível autismo tardio.
O tratamento da Fibromialgia exige acompanhamento de diferentes especialistas, entre eles psicólogo, psiquiatra, reumatologista, neurologista, ortopedista e fisioterapeuta. Além do uso de medicamentos, Ailana também recorre a terapias naturais, incluindo diferentes formas de canabidiol.
Para a ativista, que participou das mobilizações pela aprovação da nova legislação, o reconhecimento da fibromialgia como deficiência representa um avanço importante.
“É uma vitória. Lido com algo que ninguém vê. Penso nas mulheres que dependem do Sistema Único de Saúde e que muitas vezes aguardam meses por uma consulta. Agora, a luta é pela implementação efetiva dos tratamentos”, afirma.
Desafios para o diagnóstico da fibromialgia
O ortopedista Maurício Leite, que se especializou no tratamento da doença e participou de debates públicos sobre seu reconhecimento como deficiência, explica que o diagnóstico da fibromialgia continua sendo essencialmente clínico.
Segundo o médico, não existe exame laboratorial ou de imagem capaz de confirmar a doença. Por isso, muitos pacientes realizam diversos exames apenas para descartar outras condições, como a Artrite reumatoide.
“Os critérios diagnósticos estão bem definidos na literatura médica e há protocolos estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Reumatologia”, afirma.
De acordo com o especialista, o crescimento nos registros de atendimento não significa necessariamente aumento real da incidência da doença, podendo refletir maior reconhecimento e diagnóstico da condição.
“Hoje há maior acesso à informação e as investigações clínicas são mais detalhadas”, afirma o especialista.
Dificuldades enfrentadas por quem convive com a doença
A Fibromialgia é marcada por um padrão de sintomas variável, com períodos de melhora alternados com fases de dor intensa e maior limitação. Essa característica pode dificultar tanto o diagnóstico quanto a rotina social e profissional dos pacientes.
Muitas pessoas que convivem com a doença relatam enfrentar estigmas e incompreensão, sendo frequentemente rotuladas de forma equivocada como “preguiçosas”. Embora possam ocorrer períodos de maior incapacidade, a condição raramente leva à incapacidade permanente.
Atualmente, não existe um medicamento específico capaz de tratar a fibromialgia de forma isolada. Por isso, o tratamento costuma ser multidisciplinar, envolvendo diferentes abordagens terapêuticas, como:
- uso de medicamentos para controle da dor;
- acompanhamento psiquiátrico;
- psicoterapia;
- ajustes na alimentação;
- controle de comorbidades;
- prática de atividade física supervisionada.
Além do tratamento médico, o apoio familiar e social é considerado fundamental para a qualidade de vida dos pacientes.
Também são recomendadas medidas de prevenção e controle dos sintomas, entre elas:
- manter uma rotina de sono adequada;
- praticar atividade física com orientação profissional;
- adotar uma alimentação equilibrada;
- desenvolver estratégias para manejo do estresse;
- realizar acompanhamento médico contínuo.

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